Maria Bethânia - UOL Fotoblog
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Uma Crítica bem Elaborada


Maria Bethânia, presente, mas parte do público prefere o celular

Antes de Maria Bethânia entrar no palco do Theatro NET São Paulo, na noite desta quarta (22), o público assiste ao depoimento do jornalista Reynaldo Jardim, em trechos do filme Profana Via Sacra, de Alisson Sbrana, de 2010.

Pouco antes de sua morte, em 2011, Jardim fala sobre sua relação com a cantora e o livro que fez para ela: Maria Bethânia Guerrilha Guerrilheira. Agora relançada pela Debê Produções, a obra saiu primeiramente no fim de 1968, 15 dias antes do AI-5, que cassou direitos civis dos brasileiros e colocou o livro debaixo de censura.

O depoimento de Reynaldo Jardim serve de preparatório para o espetáculo Bethânia e as Palavras.

Tal qual uma professora de literatura do Recôncavo Baiano, Bethânia surge com uma pastinha que contém os textos poéticos que pretende ler ao longo da noite, entremeados por uma ou outra canção executada na companhia de dois músicos, um no violão e outro na percussão.

Bethânia conta que o projeto surgiu de um convite da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas que ela quis dividi-lo com seu público. Fala da importância da poesia, e de seu tempo, de sua troca, neste mundo cada vez mais veloz.

Bethânia conclama palavra, essência.

E lembra que, nos tempos de ditadura, quando alguém encontrava algo que valia a pena, logo compartilhava com os demais. Olho nos olhos.

A dicotomia do desejo de Bethânia em relação aos espectadores é grande. A artista encontra uma plateia completamente conectada, que não consegue se desplugar para o tempo que seu espetáculo exige.

Pode ser uma viagem de Bethânia querer catequizar essas pessoas submersas nas novas tecnologias ao seu tempo artístico de tanta sensibilidade. Pode ser. Mas quem, em sã consciência, tira a razão de Bethânia?

Lembrando de seu professor de literatura, que também deu aula a Caetano Veloso, seu irmão, discursa apoio à escola pública de qualidade para uma plateia cujos filhos frequentam os mais caros colégios particulares. É aplaudida. E os celulares continuam a registrar tudo.

Contrastando com a luz que ilumina Bethânia, há muitas outras luzes, menores, em cada assento. Ávidas pelo registro fácil, rápido e que rouba a troca real.

Gravam Bethânia sem parar. Parecem não querer ouvir sua voz, dizendo aquelas poesias. Parecem não se importar com o que ela tem a compartilhar.

Bethânia se doa em prol do que acredita. Pede amor ao público, que só ama a si próprio, como surge em sua boca.

Mais do que beber a delicadeza daquelas poesias, que ganham força na voz de Bethânia, muitos querem apenas o registro fugaz para ser compartilhado nas redes sociais o quanto antes. Num relato frenético que nem George Orwel foi capaz de prever. Não é preciso o olho do Grande Irmão de 1984 para vigiar tudo e todos. Cada qual é seu próprio olho investigador, seu autoespia.

Mas, alguns, muito poucos, entendem o que é estar no mesmo espaço que Bethânia. Ouvir sua voz, na batida de sua respiração. Ali, tão perto. E tentam se conectar com o que a artista oferece. Com o real.

Bethânia está ali, viva, entregue, naquele momento único de troca energética que só existe no encontro de palco e plateia.

No mundo altamente mergulhado nas mediações tecnológicas, sem respiro para o real, cercado de filtros por toda a parte, Bethânia parece quase sozinha naquele palco, não fossem estes poucos cúmplices resistentes. Porque a maioria, infelizmente, não entende nada. (Por Miguel Arcanjo Prado)


24/10/2014 Publicada por Neide

  

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