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Maria Bethânia, o Mais Puro Brilho Estelar
O segredo já estava no título, mas ninguém ligou. Porque Maria Bethânia, longe de se limitar a cantar Chico Buarque (cujos concertos em Portugal, este ano, ainda correm o risco de não se concretizar), extraiu das suas canções mais do que palavras, também cores e sentimentos: vivos, contraditórios, reais. O roteiro do espectáculo, com algumas (boas) alterações ao que tem sido apresentado no Brasil, revelou-se inteligente, lógico, criativo e, acima de tudo, muito bem concretizado em palco. Mesmo com pequenos lapsos (Bethânia trocou “uma cantiga anunciou” por “uma cantiga me ensinou” em “Maninha”; e interrompeu “Mambembe” para voltar ao princípio, autocorrigindo-se), raramente ela surgiu num palco português tão desenvolta, apaixonada e visivelmente feliz (emocionada, até, sobretudo no final). A voz, que a par do nervo interpretativo e dramático é o seu mais distintivo trunfo, não perdeu expressividade, cor ou brilho, pelo contrário: com os anos (e ela fará 66 em Junho) tem até ganho nuances que a tornam mais intensa e explícita na abordagem das palavras, dando a cada uma o peso que ela instintivamente pede. Daí que “Oásis de Bethânia”, o seu mais recente disco, tenha estado presente neste concerto não apenas com duas canções, a meio (“Casablanca” e “Fado”, ambas do compositor baiano Roque Ferreira, entremeadas por um poema de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, “Não sei quantas almas tenho”), mas também em espírito. Neste oásis de Bethânia, que é o da busca da maior intensidade com um mínimo de meios, Chico Buarque ganhou colorações mais vivas e profundas porque foi a essência da palavra que deu novos rumos à música. E se o espectáculo se desenrolou entre uma curta citação, no início, do samba-enredo “Chico Buarque da Mangueira” e a sua entoação festiva no primeiro “encore”, a forma como surgiram ligadas as canções valorizou-as e valorizou a já de si magnífica obra do compositor.
À sequência de abertura, portentosa (“Rosa dos Ventos”, “Baioque”, “Maninha”, “Roda Viva”), seguiu-se outra, algures entre a opressão e a resistência, no sentido político ou estritamente humano (“Cala a boca, Bárbara”, “Tira as mãos de mim”, “Cálice”, “Gente Humilde”, “Apesar de Você”), desembocando em “Gota d’água” (e raras vezes esta terá soado tão verdadeira, como um vulcão à beira da erupção), “Sonho impossível”, “Sem fantasia” (vídeo projectado num écrã no topo do palco, onde Bethânia e Chico cantam juntos), “Vida” e “Minha história” (a excelente versão buarquiana do “Gesubambino” de Lucio Dalla, que morreu precocemente este ano, a meio de uma tournée).
“Beatriz”, num lírico, denso e muito aplaudido instrumental, abriu caminho ao segundo acto, com Bethânia agora numa aparência de menina, rejuvenescida pela voz e pela luz (a roupa era outra, mantendo os mesmos tons de verde mas claramente a marcar a diferença entre as duas partes do espectáculo). Primeiro com “Teresinha” e depois (após a já citada apresentação de “Oásis”) com “duplas” certeiras de canções: “Cotidiano” colado a “Sem açúcar”; “João e Maria” a “Quem te viu, quem te vê” e “Noite dos mascarados” (belíssimos os vídeos a preto e branco de celebrações remotas do carnaval brasileiro, com crianças a sambar e máscaras de outros tempos); o lamento de “Rita” a uma interpretação fulgurante de “Olhos nos Olhos”; “Samba e Amor”, num excerto recitado, a anteceder “Tatuagem”; e, por fim, “Mambembe” com uma citação inteligentíssima de “Ela desatinou”, mambembe cigano cantando “por baixo da ponte” ou “por baixo da terra” e ela “ainda sambando” mesmo depois de ver “morrer alegrias” e “rasgar fantasias”, ela a “infeliz feliz.” O génio de Chico, naturalmente, mas valorizado pela inigualável força interior de Bethânia.
Num concerto assim, os “encores” só poderiam corresponder, com a pesada cortina do coliseu a descer e subir por três vezes, por pressão do público. O primeiro rematou, na verdade, o concerto, com “Chico Buarque da Mangueira”. O segundo trouxe “Não existe pecado ao sul do Equador”. E o último, quando felicidade e exaustão já quase indistintamente se misturavam, saiu do reportório buarquiano para expor pela enésima vez aquele que é já o “hino à vida” de Bethânia: “O que é, o que é”, de Gonzaga Jr.Brilhante, intenso, com alguns momentos belíssimos, este foi um espectáculo que expôs o melhor da arte de ambos, cantora e compositor, com músicos à altura do desafio (seis, com Jaime Alem no comando). Nenhum lapso poderá ofuscar semelhante vitória (Nuno Pacheco). Foto: Nobre F.
15/05/2012 Publicada por Neide
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