|
Maria Bethânia, Ê Senhora!
Quando declarou o amor pela música e pelo ofício de cantar no lançamento simultâneo dos dois últimos álbuns --"Tua" e "Encanteria"--, Maria Bethânia não estava para brincadeira... Bethânia construiu uma sutil unidade em músicas que se completam ao mesmo tempo em que salientam uma ampla diversidade de gêneros e regiões brasileiras içadas do cancioneiro popular com rara precisão. Dividido em blocos de músicas que dialogam entre si, o repertório flui de um ponto a outro sem quebras que pudessem desviar a atenção de uma platéia que lotou a casa. “Vida”, de Chico Buarque, foi uma feliz intrusa no início do show, pautado pelo clima de festa sugerido no álbum “Encanteria”. A sequência foi encerrada pela própria “Encanteria”, pérola de Paulo César Pinheiro que é quase um samba exaltação, usado sabiamente também no final da noite, antes do bis. O público não hesitou em acompanhar espontaneamente o ritmo na palma da mão. Quando a cortina foi erguida, Bethânia apareceu no centro do palco, na frente de um painel de rosas vermelhas salpicadas por pequenas luzes que alternam cores, posição e ritmo com que piscam. Os músicos tocam em duas arquibancadas montadas nas laterais, e o efeito funcionou muito bem no cenário criado pela parceira Bia Lessa, que também dirige o show. Com a divisão em dois atos, na segunda metade o painel deu lugar a um mosaico formado aos poucos por cerca de 200 quadros com fotos de fachadas de casas nordestinas. Um dos grandes momentos da noite aconteceu num bloco que é uma espécie de pout- pourri, alinhavado pela alegre e cativante “Saudade Dela”. A música é uma homenagem a Dona Edith do Prato, referência musical de Santo Amaro da Purificação, morta neste ano. O percussionista Reginaldo Vargas usou o prato de louça para resgatar a batida do Recôncavo Baiano, outra vez acompanhada com palmas pelo público. O bloco, que inclui ainda “Ê Senhora”, samba festivo de Vanessa da Mata, é outro retirado de “Encanteria”, fechando o ciclo que aponta para o final do espetáculo. Antes, Bethânia criou momentos intimistas, seja cantando suavemente, quase à capela, acompanhada por violão ou teclados, ou ainda quando soltou a voz a plenos pulmões. Para cantar “É o Amor Outra Vez”, parceria de Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, ela se sentou numa cadeira junto dos músicos. Relaxada, explorou os temas românticos do disco “Tua”, gêmeo de “Encanteria”. Em “Fonte”, pediu para o violonista e autor dos arranjos do espetáculo, Jaime Alem, abaixar o tom para realçar sua interpretação, num dos momentos mais intensos da noite. O público respondeu com muitos aplausos, cena que se repetiria mais vezes. Outro artifício que ajudou a engendrar o espetáculo foram as leituras feitas por Bethânia, de textos assinados por Wally Salomão ou por ela própria, ou mesmo de improviso. Num deles, a cantora explicou como o pai dela gostava de ouvir a conhecida “Não Identificado”, de Caetano Veloso, que abre o 2º Ato, para homenagear a mãe, Dona Canô, e dedicou o show a ela. Num outro, Bethânia revela um apreço ao cancioneiro regional e a moda de viola, para introduzir um bloco com a congada mineira de “Estrela”, de Vander Lee, e o típico dedilhado interiorano muito bem executado por Alem em “Doce Viola”, de sua autoria, entre outras canções afins. É de se destacar como Maria Bethânia circula por muitos gêneros musicais sem deixar de capturar uma unidade em torno de si própria, talvez até pelo atípico e versátil tom de voz e pela vocação de intérprete. Sem deixar intervalos ou anunciar os títulos das músicas, ela vai do samba de roda ao típico samba carioca, do tango exageradamente dramático (“Até o Fim”) ao quase rock de “Balada de Gisberta”, que encerra o 1º Ato, e conseguiu fazer a popularesca “É o Amor”, de Zezé Di Camargo e Luciano, soar agradável – e não só por conta de o público saber a letra de cor e salteado. No bis, depois de cerca de hora e meia de um show que quase não pára, Bethânia voltou e viu o público acalorado, de pé, no gargarejo, lançando pétalas ao palco. Sem a banda parar de tocar, ela engatou “Noite dos Mascarados”, de Chico Buarque, celebrando o Carnaval, no momento em que as duas partes do cenário se juntavam no palco (Marcos Bragatto). Foto: Mauro Ferreira.
07/11/2009 Publicada por Neide
|